Luanda

Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos do hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.

Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul. Se fosse uma catástrofe, seria um terramoto: energia insubmissa, estremecendo, em uníssono, as profundas fundações do mundo. Se fosse uma mulher, seria uma meretriz mulata, de coxas exuberantes, peito farto, já um pouco cansada, dançando nua em pleno carnaval. Se fosse uma doença, um aneurisma.

José Eduardo Agualusa, As Mulheres do Meu Pai

 

Today the streets of Luanda see a mix of the elongated umbundo of the ovimbundos; Lingala — a language born to be sung — and the scratched French of the Congolese returnees. The refined Portuguese of the bourgeois. The deaf Portuguese of the Portuguese. The strange quimbundo of the last bessangana women. Together with this — in these new times — is a pinch of the elliptical Mandarin of the Chinese, a spice-market scent of the sunny Arabic of the Lebanese; and even some words of revived Hebrew, gathered at a leisurely pace on a Sunday morning in some of the most sophisticated bars of the Island. Plus English, in a variety of tones, from the English, the Americans and the South Africans. The happy Portuguese of the Brazilians. The enchanted Spanish of a Cuban who’s been left behind.

If it were a bird, Luanda would be a massive macaw, drunk on abyss and on blue. If it were a catastrophe, it would be an earthquake: ungovernable energy, shuddreing in unison the deepest foundations of the earth. If it were a woman, it would be a mulatta prostitute, with exuberant thighs, full breasts, now a little tired, dancing away naked in the middle of Carnival. If it were an illness, an aneurism.

José Eduardo Agualusa, My Father’s Wives (translated by Daniel Hahn)
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